Vladimir de Paula Brito
Resumo
Introdução
“A economia capitalista tem sofrido uma série de transformações nas últimas décadas. (...) Considerando-se as disparidades existentes entre países ricos e países pobres, corremos o risco de nos vermos em um fosso social e econômico cada vez mais intransponível. Para um terço da humanidade, a palavra capitalismo ainda significa, na prática, fome e exclusão.
(...) É tão evidente sua marginalização econômica e social, que, ao se observarem massacres terríveis de suas populações por disputas de etnias rivais ou guerras civis, não se vê nenhuma predisposição das grandes potências, representadas pela ONU, em intervir para defender a “liberdade”, como acontece em outros casos como o do Kuwait, que se encontra em cima de uma das maiores reservas de petróleo do mundo...
(...) A Escola Pública, em países como o Brasil, pode cumprir mais um papel fundamental. Como os novos paradigmas econômicos e sociais são edificados pela via da informação e do conhecimento, a Escola, como um ambiente cujo trabalho envolve centralmente estes, tornou-se um instrumento central para o ingresso do cidadão no mercado de trabalho formal. (...) não cabe à Escola responder às demandas de qualificação de uma sociedade excludente, como se um mar de oportunidades fosse surgir caso a sociedade fosse extremamente qualificada (...) cabe à Escola um papel mais profundo, cabe-lhe questionar as regras do jogo. Formar um cidadão é formar a capacidade de questionamento, de auto-aprendizado, de julgamento. Será instrumentalizando a sociedade com as indagações necessárias que se criarão instrumentos para esta questionar o modelo de distribuição de renda proposto pelas grandes potências e aceito passivamente pelas elites nacionais”...
Economia: do colonialismo ao neocolonialismo
Origens
“Quando Marx previu o fim do capitalismo, partia do pressuposto de que o sistema capitalista possui uma necessidade intrínseca de expansão da produção. (...) Como o capitalista investe constantemente no aprimoramento produtivo, sua margem de lucro por unidade produzida diminui constantemente. Afinal, no custo do produto está embutido o que gastou com empregados e equipamentos necessários. Só lhe resta uma alternativa: produzir um maior número de produtos de forma que possa recuperar sua margem de lucros ou quem sabe aumentá-la, a partir de suas vendas globais (...) a maturação da economia capitalista provocou profundas mudanças sociais,bem como a total ocupação do globo, a partir da óptica dos mercados. Países com cultura secular, como a China, viram-se subitamente à mercê das grandes potências econômicas e de seus canhões. (...) Como a perspectiva de recessão econômica é mais ingrata ao capitalista, pois pode perder sua empresa conforme o tamanho da crise, o instrumento mais atraente nos primórdios da economia de mercado era a utilização da guerra (...) no pós-guerra, um terço da humanidade abandona a economia capitalista, aderindo à planificação estatal e à coletivização das forças produtivas, ou seja, um terço do Globo passa a não estar mais “disponível” ao “mercado”.(...) surgem as armas atômicas, que passam a representar um grande mecanismo de dissuasão, à medida que põem em xeque a própria existência da humanidade. (...) O objetivo: a recolonização dos países de terceiro mundo, só que desta vez menos pela via militar e mais pela via econômica”...
Capital financeiro e especulativo
“O surgimento do capital financeiro parte da seguinte lógica econômica: a produção gera lucros ao capitalista; enquanto uma parte do lucro geralmente é reinvestida na produção, uma outra é realizada, ou seja, o capitalista a toma para si e para seu bem-estar...
(...) À medida que as economias foram fazendo uso intensivo do capital disponível, passou a ser comum a especulação financeira, em que a simples transferência de capitais de um lugar para o outro (...) significa a total falência econômica ou a conquista de novos mercados. Também surgiu o conceito de bolsa de valores: um lugar em que as empresas ofereciam percentuais de propriedade materializados em ações, em troca de financiamento...
...O sonho dos financistas passou a ser o de um mercado global, em que os capitais pudessem fluir de uma economia para outra..
Neoliberalismo, globalização e recolonização
“... As grandes potências econômicas, em particular a Inglaterra e os Estados Unidos, depois de um pequeno laboratório na economia do Chile, retomam conceitos econômicos do século dezenove que pregavam a ausência total do Estado nos mercados...
(...) Com a proliferação do neoliberalismo, sobretudo a partir do consenso de Washington, uma enxurrada de privatizações começa a ocorrer, em particular em países do terceiro mundo. Outro aspecto relevante do neoliberalismo é que ele preconiza a total abertura das economias para o capital. Países que antes protegiam suas economias com a fixação de taxas alfandegárias passam a diminuir taxas, ou mesmo a eliminá-las possibilitando a entrada de produtos importados...
(...)No marco de uma disputa econômica cada vez mais global, cuja velocidade dos processos é enorme, a informação passa a ser um instrumento basilar na busca pelo lucro, e as ferramentas que ajudam a fazer trafegar a informação, como a Internet, adquirem um novo valor econômico.”
Sociedade da informação
A nova importância econômica da informação
“Neste “admirável mundo novo”, a sociedade da informação possibilita a continuidade do sistema capitalista, como uma alternativa de desenvolvimento econômico para as grandes potências. Os mercados globais – que eram obtidos mediante o uso da força e das crises econômicas de superprodução – são novamente abertos pela via do neoliberalismo e da informação...
(...) A informação passa a ser um conceito-chave no processo produtivo global. (...) É a partir das redes de informação que estão sendo edificadas lojas virtuais, sem funcionários nem prédios, que funcionam vinte e quatro horas por dia, sete dias na semana...
(...) À medida que os instrumentos de geração de riquezas se deslocam para os segmentos da economia que se utilizam intensivamente da informação, vários setores sociais entram rapidamente em uma perigosa dinâmica de obsolescência funcional.”
Impactos Sociais: uma catástrofe anunciada
“(...) Todas as transformações econômicas anteriores que o mundo viveu, seja das sociedades agrárias até a revolução industrial, provocaram profundos deslocamentos de poder.(...) Quando surge o motor a vapor e se inicia a revolução industrial, o homem vê-se deslocado bruscamente do campo para a cidade. Ao longo do século XX, o campo esvazia-se e as cidades tornam-se cada vez mais um pólo de atração porque é nelas que estão as indústrias e conseqüentemente, os meios de sobrevivência.(...) Aqueles países, empresas ou pessoas que não souberem ou não adquirirem mecanismos para lidar com a informação certamente terão um papel econômico cada vez mais subalterno, arcando com as conseqüências sociais que possam advir disso. (...) Os países de primeiro mundo concentram-se na produção de bens com uso de intensivo de tecnologia e informação, como a indústria dos processadores de computador, redes ou telefonia, enquanto os países de terceiro mundo têm que se contentar com a produtos agrícolas, que têm baixíssimo desenvolvimento como o Brasil é reservada parte da indústria, geralmente poluente, que aos países desenvolvidos não interessa mais manter em seus territórios...
Ao pensarmos uma sociedade tão díspare como a brasileira, podemos concluir que as tecnologias da informação, subordinadas à óptica neoliberal vão significar certamente mais exclusão social em um país com mais de cinqüenta milhões de excluídos...”
Globalização, trabalho e educação
... “Com o capitalismo informacional, ter acesso à Escola e à informação, mais do que acesso à cultura ou à possibilidade de ascensão social, significa ter acesso ao mercado de trabalho. (...) Levando-se em conta que, até há algumas décadas, o perfil ideal do trabalhador fabril, do ponto de vista das empresas, era algo próximo ao analfabetismo, isto nos dá a dimensão da velocidade das transformações que vivemos
(...) A solução apontada às pessoas é “estude”, aprenda “Windows”, navegue na
Internet, tire o segundo grau, faça universidade, tenha uma pós-graduação. As pessoas são levadas a tentar acumular conhecimentos sem ter em mente o porquê.
(...) O caminho para a construção de uma sociedade mais igualitária, em tempos de sociedade da informação, é o caminho de uma Escola que represente a possibilidade de construção e reprodução de uma política em que os valores sociais sejam o tema central.”
Escola enquanto instrumento de transformação
... “A Escola pode e deve cumprir um papel muito mais importante para a sociedade, em particular para os segmentos oprimidos, que é o de elo de continuidade cultural, de transmissora e construtora de cultura. (...) cabe à Escola ajudar a construir os questionamentos e indagações que se fazem necessários...
(...) Nesse sentido é dado mais um desafio à Escola: o desafio de utilizar-se dos recursos informacionais existentes dentro de uma perspectiva de inclusão e questionamento.”
Possibilidades, por enquanto, possibilidades
“... As ferramentas da informação tais como o computador, podem representar uma enorme gama de possibilidades para o ensino, modificando para melhor vários processos, e ainda apresentando uma série de novas oportunidades, principalmente se estiverem a serviço das coletividades...
(...) A Internet possibilita um nível nunca imaginado de possibilidades em relação ao trabalho em grupo. Mediante a conjugação de correio eletrônico e endereços de conteúdo, pode-se congregar virtualmente quaisquer coletivos que se queiram.
(...) A Escola, ao se descolar do viés tecnicista e profissionalizante, pode fazer das tecnologias digitais instrumentos que possibilitem grandes transformações nas relações de ensino e aprendizagem...
(...) O papel da educação em relação à sociedade da informação é pautado tanto pelas concepções vigentes de Escola para o trabalho quanto pela forma com que o computador entra na própria Escola.”
Informação a serviço da Educação, e não o contrário
“Ao pensarmos o uso da informação na Escola Pública, é importante também estabelecermos algumas considerações, pois a mera disponibilização de equipamentos não significa necessariamente a ruptura das diferenças socioeconômicas que vivemos. Se quisermos fazer da tecnologia nossa aliada, primeiramente temos que pensar por que queremos esta tecnologia, pois existem muitas contradições em seu uso....
Dentro dessa lógica, muitas vezes a serviço das grandes empresas de informática, diga-se de passagem, distintos programas governamentais já despejaram milhares de computadores dentro das Escolas, como se a simples presença de ícones pós-modernos fossem suficientes para edificar a democratização da sociedade informacional. Infelizmente, com honrosas exceções, os computadores muito pouco contribuíram para qualquer processo de democratização e uso da informação. (...) A Escola compra o software como se este fosse isento, ideologicamente falando, como se não estivesse subordinado a uma concepção política de ensino, muitas vezes reacionária. (...) A forma com que a Sociedade da informação tem adentrado as escolas públicas até agora tem obedecido rigorosamente, mais uma vez, a uma lógica mercadológica.
(...) Antes de tudo, o grande desafio colocado para a Escola Pública é a subordinação das ferramentas informacionais ao projeto político-pedagógico que se constrói dentro das mesmas...
À medida que a Escola elucide as suas perspectivas político-pedagógicas, aí sim, a tecnologia pode e deve cumprir um grande papel.”
Computador: a serviço de quem?
“Mas não basta subordinar a informação à política. À medida que a Escola não tenha como concepção de relação com a comunidade a inclusão social e o combate ao analfabetismo, isso automaticamente irá refletir-se na forma de trabalhar a Informática e a informação. Aliás, é bastante comum Escolas, geralmente particulares, construírem projetos de uso dos recursos informacionais disponíveis, mas esses pouco questionam a lógica da exclusão social (...) A questão não é somente o computador na Escola, e sim a quem serve o computador na Escola. De nada nos adianta, sob a óptica da inclusão, a implementação de projetos pedagógicos profundamente avançados e desafiadores, mas que não conseguem chegar aos segmentos mais oprimidos de nossa sociedade. Uma Escola Pública que se coloque a serviço dos segmentos mais marginalizados da sociedade, que prime, portanto, pela construção da cidadania, que coloque a relação ensino e aprendizado a serviço de uma sociedade, e não de um mercado, certamente estará dando um primeiro passo para combater também a exclusão digital.
... Se temos como desafios à construção de políticas que façam da Escola um instrumento cada vez maior de combate à exclusão, não devemos deixar de levar em conta os segmentos da população que historicamente seguem excluídos, inclusive do ensino. A instituição Escola, em particular a Pública, pode e deve pensar o seu projeto político-pedagógico colocando-se como uma plataforma para o acesso as novas tecnologias da informação, não somente para seus alunos e profissionais da educação e professores, mas também da comunidade do entorno. São poucas as instituições do Estado que possuem a capilaridade e o enraizamento social das escolas.
Existem segmentos sociais que precisam de respostas urgentes para questões que dizem respeito à própria dignidade humana...”
Conclusão
“...Como vimos, esse processo não vai findar sem uma intervenção social que modifique a lógica de mercado, a lógica neoliberal. Combater essa lógica é fazer da Escola um espaço de resistência, um espaço de questionamento. É utilizar as novas tecnologias da informação a serviço da construção de conhecimento e cidadania, combatendo a mitificação do computador..
Existe um massacre lá fora. Ao invés das distâncias diminuírem, elas tem aumentado. Agora, além do letramento, existe a tecnologia (...) A partir da informação, podemos ampliar as possibilidades da palavra aprender, e este aprender, desde que subordinado às necessidades do homem, pode realmente mudar o mundo, como já o fez tantas vezes...
À medida que possamos compreender o que está em disputa e a relevância do papel da instituição Escolar nesse contexto, podemos perceber que, ao construirmos políticas que coloquem a tecnologia da informação a serviço do combate à exclusão social, estaremos concomitantemente instrumentalizando a sociedade no combate ao projeto neoliberal, que nada mais é do que a exclusão instituída e globalizada.”
terça-feira, 16 de dezembro de 2008
Assinar:
Postar comentários (Atom)

Um comentário:
por favor,
alguém pode me passar o e-mail do sr. vladimir de paula brito.
Atenciosamente,
Postar um comentário