quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Prólogo: a Rede e o Ser

No final do séc. XX as tecnologias da informação começaram a remodelar a base material da sociedade aceleradamente. Cai o socialismo e cresce o capitalismo, que passa por um processo de reestruturação:
- maior flexibilidade de gerenciamento;
- descentralização das empresas;
- declínio dos movimentos de trabalhadores;
- individualização e diversificação as relações de trabalho;
- aumento da força de trabalho feminina;
- intervenção do Estado na economia;
- aumento da concorrência econômica global.

Em conseqüência desta revisão geral do sistema capitalista, testemunhou-se:
- a integração global dos mercados financeiros;
- o desenvolvimento da região do Pacífico asiático como o novo centro industrial global dominante;
- a difícil unificação econômica da Europa;
- o surgimento de uma economia regional na América do Norte;
- a diversificação, depois desintegração, do Terceiro Mundo;
- a transformação gradual da Rússia e da antiga área de influência soviética nas economias de mercado;
- a incorporação de preciosos segmentos de economias do mundo inteiro em um sistema interdependente que funciona como uma unidade em tempo real;
- acentuação de um desenvolvimento desigual entre o Norte e o Sul e, entre os segmentos e territórios dinâmicos das sociedades;
- revolução informacional (novo sistema da comunicação que fala cada vez mais uma língua digital universal);
- redefinição de relações entre homens, mulheres e crianças e, consequentemente, da família, sexualidade e personalidade;
- as sociedades estão cada vez mais estruturadas em uma oposição bipolar entre a Rede e o Ser.

Tecnologia, sociedade e transformação histórica

A tecnologia da informação está presente em todos os momentos da atividade humana. É claro que a tecnologia não determina a sociedade, nem a sociedade escreve o curso dessa transformação tecnológica, uma vez no processo que muitos fatores, inclusive criatividade e iniciativa empreendedora, intervêm no processo de descoberta cientifica, inovação tecnológica e aplicações sociais, de forma que o resultado final depende de um complexo padrão interativo. Assim, quando na década de 1970 um novo paradigma tecnológico, organizado com base na tecnologia da informação, em intervenção com a economia global e a geopolítica mundial, que concretizou um novo estilo de produção, comunicação, gerenciamento e vida. É provável que o fato de a constituição ter ocorrido na Califórnia e nos anos 70, tenha tido grandes conseqüências para a evolução das tecnologias de informação. Por ex.; apesar do financiamento e dos mercados nos primeiros estágios da indústria eletrônica, pode de certa forma ser relacionado ao espírito de liberdade, inovação individual e iniciativa empreendedora abundante da cultura dos campi norte-americanos da década de 60. A ostentação nos dispositivos, na interatividade, na formação de redes e na busca incansável de novas descobertas tecnológicas, não combinava muito com a tradição, de certa forma cautelosa, do mundo corporativo. A revolução da tecnologia da informação difundiu pela cultura mais significativa de nossas sociedades o espírito libertário dos anos 60. Porém, logo que se propagaram e foram apropriadas por outros países, culturas, organizações diversas e diferentes objetivos, as novas tecnologias da informação explodiram em todos os tipos de aplicações, acelerando a velocidade e ampliando as transformações tecnológicas.
Como se sabe, a INTERNET originou-se na década de 1960, com a intenção de impedir a destruição do sistema norte-americano de comunicação, em caso de guerra nuclear contra os soviéticos. O resultado foi uma arquitetura de rede, que não podia ser controlada a partir de nenhum centro e é composta de redes de computadores autônomos com inúmeras maneiras de conexão, contornando barreiras eletrônicas. Essa rede foi apropriada por indivíduos e grupos no mundo inteiro e com todos os tipos de objetivos, bem diferentes das intenções para a qual foi criada durante a Guerra Fria.
Entretanto, embora não determine a tecnologia, a sociedade pode sufocar seu desenvolvimento principalmente por intermédio do Estado. Ou também pela intervenção do Estado, as tecnologias podem se modernizar tão rapidamente que mude completamente os destinos das economias, do poder militar, e do bem estar social.
Sem duvida, as sociedades poderem dominar a tecnologia e, em especial aquelas tecnologias que são estrategicamente decisivas em cada período histórico, e podemos dizer que embora não determine a evolução historia e a transformação social, a tecnologia incorpora a capacidade de transformação das sociedades, onde sempre em processos conflituosos demonstram seu potencial tecnológico.
Quando o renascimento estava ainda nascendo na Europa, a China já era considerada a civilização mais avançada tecnologicamente. O arado de ferro, por ex.; surgiu no séc. VI e foi adaptado ao cultivo de arroz em campos molhados dois séc. depois. No setor têxtil, a roca apareceu no Ocidente, mais progrediu mais rapidamente na China devido a uma antiga tradição da tecelagem. Além de seus navios viajarem mais rapidamente, os chineses inventaram a bússola. No setor militar, além de inventarem a pólvora, os chineses desenvolveram a indústria química capaz de fornecer poderosos explosivos. Em medicina, técnicas como acupuntura tinham resultados extraordinários, é claro, a primeira revolução no processamento da informação foi chinesa. Em 1842, a China percebeu, tarde demais, que o isolamento não conseguia proteger o Império. Desde então a China levou mais de um século para começar a recuperar-se desse destino catastrófico de sua trajetória.
Com base em pesquisas de historiadores como Qian, Jones e Mokyr, pode-se sugerir uma interpretação que ajude no entendimento da interação sociedade x historia x tecnologia.
Segundo Needham, a cultura chinesa procura manter a harmonia entre homem e natureza, e ele ainda contesta o critério ocidental utilizado para medir o desenvolvimento tecnológico. Mokyr, também considera o Estado um fator crucial na explicação do atraso do avanço tecnológico chinês. Com isso, levanta-se a questão, porque o país que inventou a bússola, a pólvora, e o Estado que foi o maior engenheiro hidráulico, repentinamente inibiria suas inovações? A resposta obvia é que não era o mesmo Estado, mas porque a classe burocrática ficou mais profundamente enraizada na administração.
Um Estado burocrático, sem incentivo externo, optou mais pela neutralidade, interrompendo assim sua trajetória tecnológica. O fato é que, após séculos, o Estado chinês pôde construir de outro modo uma base avançada em tecnologia nuclear, mais uma vez demonstra o vazio da interpretação em relação ao seu atraso tecnológico.
Outro país que se destaca, porém, como um exemplo oposto é o Japão. O Japão passou por um período de isolamento histórico ainda mais profundo que o da China. Contudo, o isolamento tecnológico não foi total e a inovação permitiu que o Japão prosseguisse com mudanças incrementais em ritmo mais acelerado que o da China. Com inúmeras formas de demonstração de tecnologia, como uma fabrica de produtos elétricos, que hoje são chamados de Toshiba.
Com essa base tecnológica o Japão acelerou sua entrada na era da eletricidade e das comunicações, décadas depois o Japão estava conectado com o mundo inteiro através de uma rede transcontinental.
Percebemos então que o Japão se tornou um grande participante nas indústrias de tecnologia de informação. É interessante ressaltar que essa evolução do Japão ocorreu no mesmo período em que a união soviética, fracassou nessa importante transição tecnológica. E também nos é interessante perceber que os resultados obtidos por China e União Soviética são totalmente diferentes em relação ao Japão. Deve-se guardar da relação entre tecnologia e a sociedade é que o papel do Estado é um fator no processo geral. Em grande parte a tecnologia expressa à habilidade de uma sociedade para impulsionar seu domínio tecnológico por intermédio das instituições sociais, incluindo o Estado. Não é diferente no caso da revolução tecnológica atual.

Informacionalismo, Industrialismo, Capitalismo, Estatismo:
Modos de Produção e Modos de Desenvolvimentos

Um fator importante para a reestruturação do Sistema Capitalista, a partir da década de 1980, foi a revolução da tecnologia. E este capítulo busca em especial evidenciar as diferenças e definir teoricamente o capitalismo / estatismo, industrialismo / informacionalismo.
As sociedades são organizadas em meio a processos estruturados por relações historicamente determinadas por produção, experiência e poder.
“Produção” é a ação da humanidade sobre a matéria (natureza) para transformá-la em produto para ser consumido pela sociedade, acumulando o excedente para investimento, conforme vários objetos socialmente determinados.
“Experiência” é a ação do sujeito sobre si mesmo, interagindo identidades biológicas e culturais deste sujeito em relação aos seus ambientes sociais e naturais. “Poder” é a ação entre os sujeitos humanos que, com base na produção e a experiência, impõe a vontade de alguns sobre os outros, por meio do emprego potencial ou real da violência física ou simbólica. O Poder tem como base o Estado que impõe aos sujeitos uma estrutura rigorosa de deveres e formas de agressões informais.
A humanidade como produtora coletora inclui tanto o trabalho como os organizadores da produção; e o trabalho é diferenciado de acordo com cada um trabalhador no processo produtivo. A matéria abrange a natureza, e esta é modificada pelo homem. Esta relação entre a mão de obra e a matéria no processo do trabalho envolve o uso de meios de produção para agir sobre a matéria com base na energia, conhecimentos e informação; a tecnologia é forma mais específica dessa relação.
As estruturas sociais interagem com os processos produtivos determinando a forma apropriação, distribuição e o uso do excedente. Essas regras constituem os modos de produção, e, é isto que define as relações sociais de produção, determinando a existência de classes sociais.
No século XX temos dois modos predominantes de produção: “o capitalismo e o estatismo.” No capitalismo visa-se o aumento do excedente apropriado pelo capital com base no controle privado sobre os meios de produção e de circulação. Já no estatismo visa-se a maximização do poder – aumento da capacidade militar e ideologia do aparato político para impor seus objetivos sobre o número maior de sujeitos. Modos de desenvolvimento são os procedimentos mediante os quais os trabalhadores atuam sobre a matéria para gerar o produto, determinando o nível e qualidade do excedente. No modo de desenvolvimento industrial, a principal fonte de produtividade reside na introdução de novas fontes de energia e na capacidade de descentralização do uso de energia ao longo dos processos produtivos e de circulação.
No modo informacional de desenvolvimento, a fonte da produção baseia-se na tecnologia de geração de conhecimentos, de processamento da informação e de comunicação de símbolos. O industrialismo é voltado para o crescimento da economia, para o aumento da produção. Já o informacionalismo visa o desenvolvimento tecnológico, isto é, a acumulação de conhecimentos e maiores níveis de complexidade do processamento da informação. No modo de desenvolvimento informacional, por ser baseado na tecnologia e informação, há uma intima ligação entre cultura e forças produtivas e entre o espírito e matéria.

O Informacionalismo e a perestroyka capitalista

“O modelo keynesiano de crescimento capitalista, que levou prosperidade econômica sem precedentes e estabilidade social à maior parte das economias de mercado durante quase três décadas após a Segunda Guerra Mundial, atingiu as próprias limitações no início da década de 1970, e sua crise manifestou-se sob a forma de inflação desenfreada.”
“Em resumo, uma série de reformas, tanto no âmbito das instruções como do gerenciamento empresarial, visavam quatro objetivos principais: aprofundar a lógica capitalista de busca de lucro nas relações capital/trabalho; aumentar a produtividade do trabalho e do capital; globalizar a produção, circulação e mercados; e direcionar o apoio estatal para ganhos de produtividade e competitividade das economias racionais.”
“Pode-se afirmar que, sem a nova tecnologia da informação, o capitalismo global teria sido uma realidade muito limitada.”
“(...) o informacionalismo está ligado à expansão e ao rejuvenescimento do capitalismo, como o industrialismo estava ligado a sua constituição como modo de produção. Sem duvida, o processo de reestruturação teve manifestações muito diferente nas regiões e sociedades de todo o mundo.”
“A reestruturação prosseguiu com base na derrota política das organizações de trabalhadores nos principais países capitalistas e na aceitação de uma disciplina econômica comum pelos países da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE).”
“Nas condições da integração financeira global, políticas monetárias nacionais autônomas tornaram-se literalmente inviáveis, uniformizando, portanto, os parâmetros econômicos básicos dos processos de reestruturação em todo o planeta.”
“Embora a reestruturação do capitalismo e a difusão do informacionalismo fossem processos inseparáveis em escala global, as sociedades agiram/reagiram a esses processos de formas diferentes, conforme a especificidade de sua história, cultura e instituições.”
“Uma teoria da sociedade informacional, diferente de uma economia global/informacional, deverá estar sempre tão atenta à especificidade histórica/cultural quanto às semelhanças estruturais referentes a um paradigma econômico e tecnológico amplamente compartilhado.”

O Ser na sociedade informal

As novas tecnologias de informação estão integrando o mundo em redes globais de instrumentalidade. A comunicação mediada por computadores gera uma gama enorme de comunidades virtuais. Os primeiros passos históricos das sociedades informacionais parecem caracterizá-las pela preeminência da identidade como seu principio organizacional. O nacionalista cultural vê a nação como um produto de sua história e cultura exclusiva, e como uma solidariedade coletiva dotada de atributos exclusivos. O surgimento do fundamentalismo religioso também parece estar ligado tanto a uma tendência global como a uma crise institucional. É significativo que o fundamentalismo tenha se difundido por todo o mundo no momento histórico em que redes globais de riqueza e poder conectam pontos nodais e valorizam os indivíduos em todo planeta embora desconectem e excluam grandes segmentos das sociedades.


CASTELLS, Manuel. A sociedade em rede. 6ª edição. São Paulo: Paz e Terra, 1999. Páginas 39 a 66.

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